Sobre a dificuldade de Cuphead e outros jogos

Por que jogos difíceis como Cuphead, Dark Souls III e Bloodborne fazem tanto sucesso?

Cuphead, Bloodborne e Darksouls III, estes são exemplos de jogos difíceis lançados na geração atual de consoles. O que faz com que essa dificuldade seja tão atraente para alguns gamers?

A dificuldade nos games não é nenhuma novidade, na verdade, antigamente os jogos costumavam ser bem mais difíceis do que hoje em dia, já que na maioria deles não tinha como salvar nosso progresso e ainda contavam com uma quantidade limitada de vidas e continues.

Ação Games

Nos primeiros jogos, o jeito era jogar muito, até memorizar as fases e conseguir zerar. Antes da internet, para deixar tudo ainda mais complicado, não era possível pesquisar no Google para obter alguma ajuda e nem ver vídeos no Youtube ensinando como passar daquele chefão. A única coisa que existia na época eram as revistas com dicas e detonados, mas nem sempre elas traziam todas as informações que precisávamos, especialmente se o jogo não fosse muito conhecido.

Com o tempo, os recursos dos jogos foram melhorando e tudo se tornou muito mais fácil. Jogar se tornou algo mais acessíveis, os games passaram a ter níveis de dificuldade diferentes, autosaves, checkpoints e até códigos de trapaça que deixavam tudo ainda mais fácil.

Para alguns gamers hardore, essa facilidade estava fazendo com que os games se tornassem tediosos e percebendo isso, Hidetaka Miyazaki trouxe Demon Souls ao Playstarion 3, um game que revolucionaria a maneira como vemos os jogos.

Hidetaka Miyazaki não tinha nenhuma formação em desenvolvimento de jogos, seu forte era a arte. Ele teve sua primeira experiencia trabalhando com games em Armored Core.  Mas quando foi chamado para trabalhar em um projeto já em andamento de um jogo que não ia nada bem, que conseguiu fazer história no mundo dos games.

Como o desenvolvimento desse jogo estava uma bagunça, ninguém dava muita bola pra ele e por isso Hidetaka Miyazaki conseguiu a oportunidade de trabalhar livremente e fazer o que quisesse. E então surgiu Demon Souls! O primeiro da série Souls, sendo o antecessor espiritual da trilogia Dark Souls e Bloodborne.

Demon Souls era algo completamente diferente do que os jogadores da geração passada de consoles estavam acostumados. O jogo possuía um alto nível de dificuldade, punindo fortemente o jogador quando cometia algum erro, fazendo com que fosse necessário treinar bastante e se aprofundar muito no jogo para conseguir superar seus desafios de alto nível.

Mas um jogo não faz sucesso apenas por ser difícil, essa dificuldade precisa ser recompensada a altura para que se justifique. É aí que a série Souls se destaca de todos os outros.

Com um visual incrível, não tanto pelos gráficos em si, mas pela ambientação dos cenários, design de criaturas e personagens, com uma jogabilidade bem balanceada, tudo isso aliado a uma excelente história, contada de uma maneira única, através de textos em itens e referências deixadas para que o jogador investigue por si só,  todos esses fatores fizeram com que o Demon Souls se destacasse dentre tantos outros títulos no mundo dos games.

A princípio, como nem a From Software, empresa responsável por seu desenvolvimento, nem a SONY, que foi quem publicou o jogo, nem a ATLUS e Bandai Namco que distribuíram o game na América do Norte e Europa respectivamente, deram muita bola pra ele e acabaram investindo pouco em publicidade, o que fez com que ele não vendesse bem no seu lançamento em 2009.

Acontece que os primeiros que se arriscaram a jogar Demon Souls, viram o seu potencia e isso foi se espalhando naturalmente. Aos poucos, as vendas foram aumentando cada vez mais e vários gamers perceberam que se tratava de um jogo incrível, diferente de tudo que conheciam.

O resto da história provavelmente você já conhece, em seguida veio a trilogia Dark Souls, que refinou ainda mais a proposta de Demon Souls, Blood Borne, Lords of The Falen, Nioh e provavelmente mais jogos irão se inspirar no estilo de Hidetaka Miyazaki.

Em nosso cérebro, a dor e o prazer são processadas de forma semelhante, sendo a superação do sofrimento o principal tempero da alegria e da vitória. Mas para que isso funcione bem, a recompensa precisa ser boa e a batalha tem de ser justa para nos sentirmos motivados a continuar e não desistir no meio do caminho.

Já em Cuphead, vemos algo ainda mais inusitado. A franquia Souls deixa claro que se trata de um jogo hardcore, mas os gráficos bonitinhos e coloridos de Cuphead podem dar a entender este é um jogo voltado ao público infantil, mas as aparências enganam.

Basta vermos a sua história para saber que por trás deste belos desenhos feitos a mão, existe um jogo destinado a um público maduro, afinal, o nosso objetivo é escapar de um pacto feito com o diabo após perdermos a nossa alma apostando em um cassino.

Cuphead é um jogo que surpreende até quem acha que já viram de tudo. Desenvolvido por um estúdio pequeno, os seus idealizadores hipotecaram suas próprias casas para ter dinheiro suficiente que desse para bancar sua produção. Isso mostra o quanto eles são dedicados e apaixonados por sua ideia, afinal, eles arriscaram bastante.

O nível de dificuldade de Cuphead é insano! Com certeza não é um jogo que irá agradar todo mundo. Seu visual completamente inusitado, os personagens tem a cabeça em formato de xícara, as animações são de primeira, baseadas em desenhos dos anos 30 feitos a mão, desenhados quadro a quadro com técnicas de animação tradicional. O jogo é capaz de nos encantar com tanta intensidade, que fica difícil de parar depois que começamos a jogar.

E aí a gente vai jogando cada vez mais, o tempo passa, nossa habilidade vai evoluindo a tal ponto que nem a gente acredita no que está fazendo e quem observa de fora, fica impressionado ao ver quem já está viciado fazendo coisas que parecem impossíveis.

Embora eu ainda não tenha zerado, em nenhum momento até agora, cheguei a ficar entediado ou achei que o jogo foi injusto de alguma forma. Cuphead consegue nos manter motivados e passar a sensação de somos capazes conseguir da próxima vez, é só não vacilar.

Conclusão:

Jogos difíceis são feitos para um público específico, eles separam os jogadores casuais dos gamers de verdade. Mas para que um jogo difícil tenha sucesso, é preciso que seja justo, com uma jogabilidade bem balanceada e que saiba estimular corretamente e de forma equilibrada, a sensação de Esforço X Recompensa em nosso cérebro. Isso é que dá aquele gostinho bom e nos faz sentir bem, massageia o nosso ego e melhora a nossa autoestima ao termos conseguido vencer algo tão difícil e ao mesmo tempo tão incrível.